Os quatro evangelhos narram episódios em que Jesus age sobre uma doença, um corpo morto, uma tempestade ou um espírito, e algo muda diante de testemunhas. O grego não tem uma palavra única para isso: Mateus, Marcos e Lucas costumam escrever dynámeis, "obras de poder"; João prefere semeía, "sinais", e também érga, "obras". "Milagre" é a palavra que as traduções escolhem, não a que os manuscritos trazem. Esta é a lista dos episódios contados um a um, com o capítulo em que cada um se lê e todos os seus paralelos.
Curas · 17
- O leproso purificadoMateus 8Marcos 1Lucas 5
- O servo do centuriãoMateus 8Lucas 7
- A sogra de PedroMateus 8Marcos 1Lucas 4
- O paralítico descido pelo telhadoMateus 9Marcos 2Lucas 5
- A mulher com fluxo de sangueMateus 9Marcos 5Lucas 8
- Os dois cegosMateus 9
- A mão ressequidaMateus 12Marcos 3Lucas 6
- Os cegos de JericóMateus 20Marcos 10Lucas 18
- O surdo que mal falavaMarcos 7
- O cego de BetsaidaMarcos 8
- A mulher encurvadaLucas 13
- O homem com hidropisiaLucas 14
- Os dez leprososLucas 17
- A orelha do servoLucas 22
- O filho do oficial do reiJoão 4
- O paralítico de BetesdaJoão 5
- O cego de nascençaJoão 9
Expulsões de demônios · 6
Sobre a natureza · 9
- A tempestade acalmadaMateus 8Marcos 4Lucas 8
- A multiplicação para cinco milMateus 14Marcos 6Lucas 9João 6
- Andar sobre as águasMateus 14Marcos 6João 6
- A multiplicação para quatro milMateus 15Marcos 8
- A moeda na boca do peixeMateus 17
- A figueira que secaMateus 21Marcos 11
- A pesca abundanteLucas 5
- A água transformada em vinhoJoão 2
- Os cento e cinquenta e três peixesJoão 21
Ressurreições · 3
Os quatro grupos desta página — curas, milagres sobre a natureza, expulsões de demônios e ressurreições — são uma convenção de catalogação, não uma divisão feita pelos evangelhos: nenhum evangelista classifica o que narra. Servem para a gente se orientar e têm fronteiras porosas. Lucas 13 apresenta a mulher encurvada como presa por um espírito havia dezoito anos, e mesmo assim quase todos os catálogos a colocam entre as curas; o menino de Mateus 17 é descrito ao mesmo tempo com o vocabulário da doença e o da possessão; e uma ressurreição pode ser lida como o caso extremo de uma cura. Quando uma entrada caberia em duas caixas, aqui ela fica na habitual, não na única certa.
João os conta de outro jeito: chama-os de semeía, "sinais", e numera os dois primeiros — a água transformada em vinho é o primeiro dos seus sinais (João 2:11) e a cura do filho do oficial, o segundo (João 4:54). Daí em diante ele não numera mais. Falar dos "sete sinais de João" é uma contagem dos leitores, não do evangelista, e as listas publicadas não coincidem: umas incluem o andar sobre as águas de João 6, que o texto não chama de sinal, e outras o deixam de fora e põem no lugar a pesca de João 21. O próprio evangelho avisa que a seleção é parcial: diz que Jesus fez muitos outros sinais que não estão escritos no livro (João 20:30). E a palavra não sobrevive intacta à tradução: em João 4:54, a edição inglesa deste site diz sign, a portuguesa sinal e a espanhola milagro.
Os evangelhos alternam episódios e sumários: Mateus 8:16 diz que ele curou todos os doentes que lhe trouxeram, e Marcos 1:34, que curou muitos. Um sumário não é um episódio, e quem o conta como tal infla o total sem avisar. Por isso aqui vai a lista, e não um número redondo: 35 entradas, cada acontecimento uma única vez e com os paralelos ao lado. Os catálogos publicados costumam ficar entre trinta e tantos e quarenta e poucos, e a diferença é de critério: Mateus conta dois endemoninhados em Gadara onde Marcos e Lucas contam um; as duas multiplicações de pães podem ser dois fatos ou um só contado duas vezes; o servo do centurião (Mateus 8) e o filho do oficial do rei (João 4) já foram identificados como o mesmo caso; e há listas que somam a ressurreição do próprio Jesus, que os evangelhos não narram como algo que ele faz a outra pessoa. Nada disso separa umas igrejas das outras: os quatro evangelhos são os mesmos em todos os cânones.