As treze cartas que levam o nome de Paulo são escritos de ocasião: cada uma responde a uma situação concreta — uma briga, uma visita adiada, um dinheiro enviado, perguntas que lhe chegaram — e segue o formato da carta grega da época: quem escreve, para quem, uma saudação, o corpo e uma despedida com recados e nomes próprios. São intituladas pelo destinatário, e não pelo autor, ao contrário dos evangelhos. Paulo ditava: em Romanos o copista se apresenta pelo nome, e em várias cartas a saudação final é assinalada como escrita do próprio punho. E também não são necessariamente todas as que escreveu: duas delas mencionam cartas suas que não chegaram até nós.
A comunidades
- Romanos16 capítulos · 8.865 palavras
Aos cristãos de Roma, uma comunidade que Paulo não havia fundado nem visitado: expõe a sua mensagem por extenso antes de aparecer em pessoa, a caminho da Espanha, como anuncia nos capítulos finais.
- 1 Coríntios16 capítulos · 8.739 palavras
À comunidade de Corinto, cidade portuária da Grécia. Vai respondendo, assunto por assunto, às notícias e às perguntas que lhe chegaram: grupos rivais, processos, casamento, a carne vendida no mercado, a ordem das reuniões e uma coleta.
- 2 Coríntios13 capítulos · 5.682 palavras
Segunda carta conservada à mesma cidade e a mais pessoal do conjunto: Paulo defende o seu modo de trabalhar diante de quem o critica e organiza a coleta de recursos para Jerusalém. De passagem, alude a outros escritos seus a Corinto que não se conservaram.
- Gálatas6 capítulos · 2.890 palavras
A um grupo de comunidades da Galácia, na Ásia Menor, e a de tom mais tenso: discute se os crentes de origem não judaica deviam observar a lei de Moisés. É a única que pula a ação de graças com que essas cartas costumam abrir e traz um relato em primeira pessoa do seu embate com Pedro em Antioquia.
- Efésios6 capítulos · 2.829 palavras
Dirigida à comunidade de Éfeso, embora em alguns dos manuscritos mais antigos falte "em Éfeso" na saudação, o que levou à hipótese de que circulasse como carta aberta a várias igrejas da região. A primeira metade é expositiva; a segunda traz instruções sobre a convivência e a vida doméstica.
- Filipenses4 capítulos · 2.093 palavras
À comunidade de Filipos, colônia romana na Macedônia e, segundo Atos, a primeira que ele fundou em solo europeu. Escreve-a preso — a carta não diz em que cidade — para agradecer uma ajuda que lhe enviaram e dar notícias de como está.
- Colossenses4 capítulos · 1.890 palavras
À comunidade de Colossos, no vale do Lico, que a própria carta diz não o conhecer pessoalmente. Pede expressamente que a carta seja trocada com outra enviada a Laodiceia, a poucos quilômetros — um escrito que não se conservou.
- 1 Tessalonicenses5 capítulos · 1.746 palavras
À comunidade de Tessalônica, capital da província da Macedônia. É uma carta de acompanhamento depois de uma estada curta: como estão desde que ele partiu e uma resposta ao que perguntavam sobre os seus mortos. Costuma ser citada como a mais antiga das treze, embora a data seja discutida.
- 2 Tessalonicenses3 capítulos · 990 palavras
Segunda carta à mesma cidade, bem mais curta. Volta ao que ali se esperava, insiste em que ninguém largue o trabalho diário e avisa que circulam escritos atribuídos a ele: por isso assinala a saudação final, do próprio punho, como a marca de que a carta é sua.
A pessoas
- 1 Timóteo6 capítulos · 2.194 palavras
A Timóteo, colaborador de longa data que a carta situa à frente da comunidade de Éfeso. É sobretudo organização: quem ensina, o que se espera dos responsáveis, como cuidar das viúvas, como se dirigir a cada grupo.
- 2 Timóteo4 capítulos · 1.580 palavras
Segunda carta a Timóteo, escrita da prisão e em tom de despedida. Alterna recados bem concretos — que lhe traga uma capa e uns livros que deixou — com uma longa lista de nomes: quem continua com ele e quem foi embora.
- Tito3 capítulos · 935 palavras
A Tito, que a carta situa em Creta com a incumbência de deixar organizadas as comunidades da ilha. Dá critérios para escolher os responsáveis e orientações de trato para cada grupo da casa.
- Filemom1 capítulos · 457 palavras
A Filemom, um particular, junto com outras duas pessoas e a comunidade que se reúne na casa dele. É a mais curta das treze, de um só capítulo, e trata de um único assunto: Onésimo, escravo de Filemom, volta com a carta, e Paulo pede que ele seja recebido de outro modo.
Estão organizadas por tamanho, não por data
O Novo Testamento não as coloca na ordem em que foram escritas, e sim, em linhas gerais, por tamanho e em dois blocos. Primeiro as dirigidas a comunidades, de Romanos a 2 Tessalonicenses; depois as dirigidas a pessoas, de 1 Timóteo a Filemom. Dentro de cada bloco vão da mais longa à mais curta, e quando duas cartas têm o mesmo destinatário elas ficam juntas e numeradas, de modo que o par é posicionado pelo tamanho da primeira. O encaixe não é milimétrico: entre vizinhas de tamanho parecido a ordem pode se inverter conforme se meça o grego ou uma tradução. Qual delas foi escrita primeiro é assunto discutido; 1 Tessalonicenses e Gálatas são as candidatas mais citadas.
Que as treze tenham saído da mão de Paulo não é consenso entre os especialistas: a autoria das três chamadas pastorais — 1 e 2 Timóteo e Tito — e a de algumas outras é discutida há séculos por causa do vocabulário, do estilo e das situações que pressupõem, e o debate continua aberto. Dois dados para ler com isso em mente: várias delas nomeiam na saudação um remetente a mais ao lado de Paulo (Timóteo, Silvano, Sóstenes), e as treze constam do cânon do Novo Testamento de católicos, protestantes e ortodoxos por igual, independentemente de onde essa discussão pare.
Hebreus não entra na conta porque não leva o nome dele: é o único escrito do Novo Testamento que começa sem remetente, sem destinatário e sem saudação, embora termine como uma carta. Ainda assim, a tradição manuscrita cedo o agrupou com as de Paulo — no P46, a coleção mais antiga que se conserva, ele vem logo depois de Romanos — e muitas edições antigas o intitulavam "Epístola de são Paulo aos hebreus". As edições atuais o chamam apenas de "Aos hebreus"; o Oriente grego o teve por paulino antes do Ocidente latino, que hesitou por séculos, e hoje a maioria dos estudiosos considera desconhecido o seu autor.